Finados: sopro de saudade e ventos de esperança!


Sexta-feira, 2 de novembro, dia de finados. Era 9h da manhã e as poltronas da Igreja já estavam ocupadas por rostos tristes e melancólicos. Apesar dos raios de sol que já saiam do lado de fora, a sensação era de que havia uma nuvem dentro da igreja.

Frei Sebastião entrou e disse em voz alta aquilo que já sabíamos: seria um dia de memórias. De relembrarmos com mais profundidade aqueles que faleceram. Havia um sorriso singelo em seu rosto, que reconfortava os corações dos fieis. Apesar da saudade que neste dia bate à porta com mais força, não é uma data para tristezas. Há também um ponto de luz.

Em certo momento, enquanto todos cantam uma música, meus olhos se prendem nas chamas de uma vela que paira próxima ao altar. Há uma brisa suave passando pelas portas, e fazendo com que o fogo se mova. Por alguns segundos, chego a imaginar que irá apaga-lo, e isso me faz pensar na similaridade daquela vela com a nossa vida. Da chama que se mantém firme perante a brisa. Que ilumina e aquece. Que pode resistir a um forte vento, mas se apagar com um sopro. Quão frágil e ao mesmo tempo forte é a vida?

A leitura da Palavra surge como uma lufada de esperança aos nossos ouvidos, e é sobre essa esperança que o Frei se levanta para falar. Em sua homilia, cita o nome de Jó. Um exemplo de fé, de perda, mas também de resistência. Um homem que viu aqueles que amava morrerem tragicamente, e nem isso tirou lhe a confiança em Deus.

“Devemos escrever a esperança na rocha.” Pede o Frei, ao falar deste sentimento tão necessário no mundo em que vivemos. Não é apenas algo que devemos sentir em nosso coração, mas também transmitir aos outros. Escrevermos na rocha, de maneira firme, para que não se apague. Para que as pessoas a entendam, a sintam, e lutem por ela. “Essa esperança é uma ideia? Uma fantasia? Não, ela é a mão de Deus a qual nos agarramos.”

Vejo lágrimas que escorrem, vejo feições de saudade, mas também de confiança nas palavras do Frei. Enquanto o coral canta “Segura na mão de Deus”, um casal ao meu lado entrelaça os dedos e um sorriso instantâneo surge em meu rosto. Por estas pessoas, que mesmo na tristeza da morte, alimentam sua fé nesta celebração. Por verem Deus em todos os lugares que Ele habita. Na Eucaristia, em toda sua criação e na pessoa que Deus pôs em seu caminho para lhe ajudar a caminhar. Aqueles que amamos e nos apoiam, são também sinal de vida e esperança divina.

Por último, Frei Sebastião nos lembra que, quando falecermos, iremos acompanhados de nossas obras. E naquele momento, para muitos ali, Finados ganha um novo significado. É um dia, sim, para relembrarmos aqueles que nos deixaram. Para dizermos seus nomes em voz alta, chorarmos e sorrirmos com lembranças. Mas também é um dia para pensarmos em nossas vidas. Estamos vivendo de verdade? Dando o nosso melhor? Estamos aproveitando profundamente a oportunidade de estarmos vivos?

Neste dia de finados, você está vivo?

Por Amanda Macuglia

Fotos: Luiz Turati.