Fornos também santificam: Dona Iracema e as cucas que levam para o céu

Foto: Luiz Turati

Cheguei no Festival de Cuca perto do meio dia. Estava tudo fechado, sem movimento, e a maioria da equipe de voluntários estava na cozinha almoçando. Porém, lá no fundo, em uma sala com calor comparado ao de uma sauna, Dona Iracema da Rosa, de 53 anos, continuava trabalhando incessantemente. Responsável por monitorar as delícias que entravam e saíam do forno, ela se esforçava ao máximo para que tudo ficasse no seu devido ponto e, de pouco em pouco, avisava para os outros voluntários que por ali passavam: “Cuidado! Está quente!”

Me aproximei da sala e fui recebido com um belo sorriso, que justificou o trabalho incessante e exaustivo em frente aos fornos. Dona Iracema me contou que é natural de Balneário Camboriú e desde muito pequena já foi educada a ir na igreja, mesmo que só para participar da Santa Missa. E assim foi por muitos anos: todos os domingos ela ia à igreja, mas sempre ficava no banco. “Eu sempre ia na missa e ficava admirando aquelas pessoas que ficavam ‘por trás do altar’, sabe?! Eu achava que eles eram todos santos”, disse ela abrindo um leve sorriso.

Até que um dia, o jogo virou e Iracema passou de espectadora para protagonista da história da igreja. Em 2003, ela foi convidada a comprar uma rifa para o bingo de dia das mães da associação de moradores. Iracema aceitou, mas desde que construíssem uma igreja no bairro onde mora, que fica distante da matriz. A partir daí começaram os trâmites para a criação da nova comunidade paroquial, mas a aceitação por parte da Paróquia Santa Inês não foi nada boa, o que fez com que Iracema procurasse a Paróquia São Sebastião, no bairro dos Pioneiros. “Um dia nós fomos lá no padre Nivaldo e ele fundou a comunidade. Depois nós fizemos quinze dias de evangelização e missas nas casas e foi assim que começou”.

Iracema contou que nessa época já participava da Renovação Carismática Católica e, com o tempo, foi iniciando seus trabalhos na liturgia. Com o tempo, a comunidade Santa Catarina de Alexandria foi crescendo e logo foi repassada aos cuidados da Paróquia Santa Inês, que iniciou a construção de uma capela para suprir as necessidades dos fiéis. Para arrecadas fundos, foi criado o Festival da Cuca e dona Iracema, por conta de seus dotes culinários, foi convidada a ajudar.

Perguntei a ela o que achava de trabalhar nessa causa, já que é um serviço bastante exaustivo. Sem largar o que estava fazendo, a voluntária olhou para mim, abriu um sorriso e disse “[Trabalhar aqui] é muito bom!” Após esse momento tão marcante para mim, conversamos mais um pouco e logo já nos despedimos. Recolhi o equipamento e segui em direção à saída. Antes, porém, olhei para trás e contemplei de novo a imagem de Dona Iracema trabalhando e, a partir disso, cheguei à conclusão que os fornos também santificam. Ela achava que as pessoas que trabalhavam na liturgia eram santas, mas a verdade é que todo trabalho bem feito pode nos santificar. E se tem uma coisa que Dona Iracema faz bem feita, essas coisas são cucas.

Então, Dona Iracema, não precisa se preocupar por ter iniciado sua vida ativa na igreja “tardiamente”. Seus fornos e suas cucas vão te levar para o céu!

Por Luiz Turati