Como celebrar a espera de alguém que não está ausente?

Advento remete à vinda, trata-se de um tempo de espera e preparação, portanto. Em consonância com a espera do Natal do Senhor, ecoa a espera escatológica de sua Parusia, a segunda vinda de Jesus, glorioso, no ápice dos tempos. Com o tempo a Igreja foi compreendendo que uma espera não ofusca a outra, pelo contrário, trata-se de uma postura necessária e constante da parte do cristão, em atenção ao chamado de Jesus para estar vigilante. Não se trata, porém, de uma vigilância amedrontada ou temerosa. De quem precisa se proteger de seu algoz e por isso não pode ser pego desprevenido. Nem tampouco como alguém sem esperança que apenas espera que algo aconteça, seja o que for. Essa espera não é cristã. Há quem diga que a espera do cristão não vem de esperar, mas de esperançar. Esperançar é atitude, não passividade. É alegria, não tristeza. E esse é o espírito do Advento. Nossa esperança escatológica enquanto humanidade se encarna na espera construtiva do Natal. Construtiva porque não é repetitiva. Cada ano seguimos construindo, nos construindo. Cada ciclo não retornamos, mas renovamos nossa disposição em celebrar a vida, celebrar o Deus da Vida e sua escolha amorosa por nós, seus filhos e filhas.

Essa é a mística do tempo do Advento. Um tempo de alegria, mas que se sabe que antecede uma alegria maior ainda, por isso de recato e busca de conversão, de estar atento e vigilante, mas sempre com um sorriso nos lábios e um olhar não apreensivo, mas de quem já vive a festa que se aproxima.
Os sinais dessa espera são muito ricos e significativos. A liturgia se volta para essa espera e procura assinalá-la externamente também. A Coroa do Advento expressa essa caminhada de preparação, que vai se iluminando cada vez mais: a cada semana uma nova chama se acende, aclarando nosso caminho. As cores das velas são simbólicas, pode ser todas de uma mesma cor, talvez roxa por ser a cor do Advento, ou mesmo brancas. Também podem ser coloridas e seguir a ordem que a comunidade estabelecer para serem acendidas. Há quem comece na roxa (cor do Advento), deixando a rosa para o terceiro domingo (gaudete) e a branca para o último, e escolhendo entre o verde o ou o vermelho para o segundo. Outras comunidades preferem começar com o verde da esperança, seguir para o vermelho do amor de Deus, o rosa da alegria e o branco da chegada. O que importa mesmo são as velas, que ardem e iluminam cada vez mais.

Além disso, a preparação para o Natal envolve iluminar e enfeitar as igrejas e também as igrejas domésticas. As casas vão mostrando novas luzes, coloridas, que emanam alegria e festividade. A árvore de Natal e o Presépio são mais do que adereços, são sacramentais dessa preparação e já da grande festa. Há quem prefira preparar o presépio bem perto do Natal, para mostrar que algo está diferente do início do Advento. Há que goste de desde o início do Advento já montar o Presépio, pois a festa já se inicia. Isso depende de cada um, e o importante é escolher o que ajuda a rezar e se preparar melhor. Se vai-se preparar uma oração bonita para, na noite de Natal colocar com a família reunida o Menino Jesus na manjedoura que até então esteve vazia pela espera, ou se preferimos deixar o Menino desde o início já em seu lugar no Presépio, para nos recordar que Ele nunca nos deixou, são escolhas que se pode fazer, e que tem o valor que atribuímos a elas. São tantas e tão lindas as tradições natalinas, familiares, da comunidade, da liturgia, que tudo o que nos aproxima do Mistério da Encarnação torna-se significativo e sagrado.

Tudo isso, entretanto, precisa externar uma preparação interna também. Pois não é na manjedoura enfeitada nem na árvore iluminada que Jesus nasce a cada ano. Ele nasce em nós. E nós precisamos nos preparar. Por isso Advento é tempo de vigilância, de conversão, de revisão de vida. Tempo de buscar o Sacramento da Penitência também. Não por escrúpulo ou pieguice, menos ainda por medo diante do Deus de Amor. Penitência é preparação para festa, mas só se seguida de mudança de vida, de conversão real. Caso contrário, se relegamos o Sacramento como um “passar pano em nossa consciência”, o desmerecemos.

Chegamos talvez ao passo mais significativo de nossa preparação que já é celebração do Natal. O clima natalino até já se tornou um chavão na cultura popular e mesmo nas produções cinematográficas. Mas não deixa de estar certo: é tempo de amar mais! É tempo de caridade. É tempo de perdão! É tempo de deixar certas coisas pra lá, de não alimentar o ego ou o orgulho, de relevar possíveis ofensas ou provocações. Talvez essa seja a preparação mais importante e efetiva, que, de fato, ilumine e enfeite nossa vida, que alegre nosso coração e que faça sorrir também o Menino que tanto queremos receber.
Feliz Advento, para um Feliz e Santo Natal!

Frei Clauzemir e PASCOM Santa Inês